Músicas que ecoam em Lisboa: a trajetória do brasileiro que ajudou a popularizar o gênero em Portugal
Há cidades que acolhem artistas. E há artistas que reinventam cidades. Numa noite qualquer em Lisboa, basta subir as ladeiras que levam ao Castelo de São Jorge para encontrar um daqueles lugares que parecem existir fora do tempo. Entre paredes carregadas de histórias, mesas compartilhadas e um público que mistura sotaques do mundo inteiro, o som do cavaquinho encontra o bandolim, o pandeiro marca o compasso e o samba conversa com o choro. É ali, no Bartô, que o músico carioca Tércio Borges ajuda a escrever uma das mais bonitas histórias da música brasileira em Portugal.
Quando chegou a Lisboa, há cerca de 25 anos, o cenário era outro. “Isso aqui era um deserto musical”, recorda. A frase pode soar exagerada para quem conhece a Lisboa vibrante dos dias de hoje, onde rodas de samba, casas de fado, festivais e concertos ocupam a agenda da cidade. Mas Tércio fala de um tempo em que encontrar músicos dedicados ao choro ou ao samba era tarefa difícil.
No Rio de Janeiro, sua vida já girava em torno da música. Tocava com grandes nomes da música brasileira, participava de gravações e produzia jingles para campanhas publicitárias. O trabalho era constante, mas algo parecia faltar. “Eu queria só música”, resume.
A mudança para Portugal nasceu quase como uma pausa. Um tempo para respirar, observar e repensar caminhos. Mas o que era para durar um ano acabou se transformando numa vida inteira. Foi dessa inquietação que nasceu o Clube do Choro de Lisboa, projeto que ajudou a formar músicos, criar público e consolidar um espaço permanente para a música brasileira na capital portuguesa.
No início, a estrutura era improvisada. Tércio descia as escadas carregando cavaquinho, violão, pandeiro e tamborim sem saber exatamente quem apareceria para tocar naquela noite. “Dependia de quem vinha.” Vieram poucos no começo. Depois vieram mais. E depois muitos.
Hoje, as rodas de choro e samba atraem portugueses, brasileiros e viajantes de diferentes países. Gente que chega por indicação, por curiosidade ou simplesmente seguindo o som. Para Tércio, o sucesso não é exatamente uma surpresa. “O samba é muito bom. O choro é muito bom.” A simplicidade da resposta esconde décadas de dedicação.
Quando fala sobre o choro, seus olhos ganham o brilho de quem ainda se encanta com o próprio ofício. Ele descreve o gênero como um encontro entre a disciplina da música clássica, a liberdade do jazz e os ritmos brasileiros. “O músico de choro toca qualquer coisa”, afirma.
Não por acaso, embora reconheça a complexidade técnica do gênero, confessa que seu coração continua pertencendo ao samba. A comparação surge espontânea: “Se eu fosse jogador de futebol, o treino físico e tático seria o choro. O jogo seria o samba.”
Talvez seja justamente essa mistura entre rigor e celebração que explique o fascínio que a música brasileira exerce em Lisboa. O público participa, canta, bate palma, dança. Deixa de ser plateia para se tornar parte do espetáculo. E o Bartô parece ter sido feito para isso.
Instalado num espaço que já foi convento, presídio feminino e tanque comunitário de lavar roupa, o local carrega camadas de memória que combinam perfeitamente com a proposta de encontro entre culturas.
Hoje, além do samba e do choro, a programação recebe cúmbia, música latina, DJs e artistas de diferentes origens. Um reflexo da própria cidade, cada vez mais plural.
Entre uma história e outra, Tércio também revela o humor que atravessa suas composições. Canções como “Melô da Camisinha” ou a irreverente música da avó que compra maconha para o neto mostram um compositor atento ao cotidiano e às pequenas ironias da vida. Mas, acima de tudo, sua trajetória fala sobre pertencimento.
Tércio saiu do Rio de Janeiro levando o choro na bagagem. Lisboa lhe ofereceu espaço para fazê-lo crescer. E, no caminho, ajudou a transformar a paisagem sonora da cidade.
Em tempos de fronteiras cada vez mais fluidas, talvez seja esse o verdadeiro poder da música: atravessar oceanos, criar comunidades e fazer com que uma roda de samba, no alto de uma colina lisboeta, pareça tão natural quanto uma tarde de domingo na Lapa. Algumas músicas viajam. Outras criam raízes. E seguem ecoando.